02 Dezembro, 2007

CRÍTICA: Beowulf



Dentre os pupilos de Steven Spielberg durante a década de 80 do século passado, Joe Dante, Robert Zemeckis, Barry Levinson e Tobe Hooper, aquele que aparentemente conseguiu fazer de forma correta o dever de casa foi Zemeckis. Assim como Joe Dante, Zemeckis conseguiu entender e expandir o conceito de cinema-espetáculo propalado por Spielberg e implementar o cinema fantástico como carro chefe de sua carreira; porém em escala muito maior, e mais lucrativa. Basta observar a seqüência de projetos pelos quais foi responsável, começando pela excelente trilogia De Volta Para o Futuro, iniciada em 1985 e amada por nove entre dez adolescentes da época; e passando por sucessos de bilheteria e crítica, como Forrest Gump – O Contador de Histórias (1995), a arrojada ficção científica Contato (1997), baseada no livro homônimo do cientista pop Carl Sagan; e Náufrago (2000).
Portanto, não é novidade que um diretor visionário procure explorar novas formas de contar histórias, como ocorre em A Lenda de Beowulf (Beowulf /EUA /2007), filme que recorre a avançadas técnicas de animação, onde os personagens são criados a partir do sensoriamento eletrônico dos movimentos dos atores, e posteriormente modelados digitalmente. Zemeckis já havia adotado semelhante procedimento em seu filme anterior, O Expresso Polar (2004); no entanto, decorridos três anos, pode-se perceber os avanços tecnológicos promovidos no mundo da animação por computador.
A história se apropria do folclore de países nórdicos, onde o guerreiro Beowulf toma para si a função de eliminar o gigante Grendel e sua mãe demoníaca, que aterrorizam uma vila dinamarquesa. No elenco estão Ray Winstone, Robin Wright Penn, Anthony Hopkins, John Malkovich, Brendan Gleeson e Angelina Jolie. Tanto as críticas americana como brasileira foram um tanto quanto duras com o longa, alguns até reclamando do caráter pueril do filme. Entretanto, há diversas qualidades, e defeitos que podem ser ignorados, dado o tipo de entretenimento a que o filme se propõe. Há boas dublagens, em especial a de Ray Winstone como Beowulf, bastante enérgica, imperativa e sarcástica, assim como exige o personagem; e a de Anthony Hopkins, como o rei Hrothgar. Apesar de alguns diálogos desnecessários e até um pouco bobos, o roteiro de Roger Avary e do mago dos quadrinhos modernos Neil Gaiman se sustenta até o final, e de certa forma prende a atenção de espectador.
O ponto culminante do filme, entretanto, reside nas qualidades técnicas. Há pelo menos duas ótimas seqüência de ação muito bem desenvolvidas, atestando a evolução em termos de software de criação; e a ótima edição sonora, característica esta que tem sido uma constante nos filmes de Zemeckis. Estes pontos fortes têm sido explorados nas exibições nos grandes centros, no Rio de Janeiro e em São Paulo há sessões em terceira dimensão, e nos Estados Unidos salas IMAX estão exibindo o filme; realçado ainda mais a experiência do cinema como um grande espetáculo, fato já tratado no início. Quanto aos aspectos negativos principais, pode-se citar a péssima dublagem de Angelina Jolie, que parece reviver o sotaque esdrúxulo que usou em Alexandre, de Oliver Stone; e por incrível que pareça, a sensação de que nem tudo está perfeito proporcionada pela animação. Apesar dos grandes avanços já citados, ainda não se pode afirmar que há um nível de excelência na representação de elementos orgânicos, como determinados movimentos de seres humanos. Também há clara dificuldade na criação de alguns seres fantásticos, como o gigante Grendel, que é sempre representado em cenários escuros e em cortes rápidos, artifício largamente utilizado quando se quer esconder imperfeições ou restrições técnicas do processo de animação, exatamente como ocorreu na trilogia O Senhor dos Anéis. A desculpa é que se pretende criar o sentimento de medo e angústia...
Boewulf é um filme que diverte em alguns momentos; uma opção para os amantes do cinema fantástico, e para aqueles que pretendem manter-se antenados em novas e diferentes maneiras de se fazer cinema. Porém, não se deve esperar uma obra seminal nem para o cinema de fantasia nem para o gênero da animação digital, como muitos esperavam.
Imagem: www.imdb.com

16 Maio, 2007

CRÍTICA: Baixio das Bestas


O segundo longa do diretor caruaruense Cláudio Assis, Baixio das Bestas (Brasil, 2006) sofre comparações com apenas um filme brasileiro da fase pós-retomada: Amarelo Manga (2003), também de Cláudio. A reação do público durante a premiação do Festival de Brasília, quando a platéia ficou dividida em aplausos enérgicos e vaias homéricas, reflete bem a relação individual que o espectador tem com o filme.
O primeiro longa-metragem de Cláudio, Amarelo Manga, basicamente seguia um caminho iniciado na primeira metade da década de 90, com o batizado pela imprensa Movimento Mangue. Elementos de denúncia social, sexualidade exacerbada e trilha sonora típica da metrópole pernambucana estão presentes. Baixio das Bestas é um passo adiante que o diretor dá em relação a Amarelo Manga, com todos os elementos polêmicos anteriores presentes e aumentados. A grande diferença, entretanto, é o amadurecimento de Cláudio, tanto em termos narrativos quanto técnicos.
Baixio é uma localidade no interior de Pernambuco que vive o momento derradeiro da economia canavieira, onde transitam prostitutas, pedófilos e rapazes de classe média misóginos. As perversões sexuais são mostradas sem pudor algum, com cenas de estupros e particularidades dos personagens à vontade. Causa repúdio em particular a exploração a que é submetida a garota Auxiliadora (Mariah Teixeira) por seu avô Heitor (Fernando Teixeira); Seu Heitor despe a menina para uma platéia de caminhoneiros por uns trocados. Mas, fica clara a intenção do diretor: o repúdio e a ânsia são mais do que propositais. Não há como não assistir aos filmes de Cláudio Assis e permanecer passivo, a interação com a obra é completa; goste você ou não dela, e a maioria realmente a odeia.
Tecnicamente, Baixio das Bestas é um triunfo do cinema nordestino. A fotografia de Walter e Lula Carvalho é uma das melhores dos últimos tempos, com belos enquadramentos e movimentos de câmera; além das cores realçadas, como nas cenas dos maracatus rurais. A trilha sonora de Pupillo também um dos pontos fortes do filme. Assis também consegue manter uma cadência narrativa sólida, quesito este que Amarelo Manga tropeçou bastante. Entretanto, nada seria do filme sem as ótimas atuações, beirando a perfeição. Os destaques são Dira Paes, como uma das rameiras locais; e Fernando Teixeira, como o avô da menina explorada. Sem dúvidas, Fernando é o grande nome do filme, e um dos responsáveis pela qualidade da película.
Cláudio Assim fez um filme forte, violento e para poucos estômagos; ainda sim será um dos melhores do ano. Confirma-se novamente que o nordeste tem a melhor e mais prolífica produção cinematográfica do país; capaz de emparelhar com o melhor cinema da América Latina: o cinema argentino.

03 Fevereiro, 2007

CRÍTICA: Babel


Foi comentado anteriormente sobre sucesso que alguns diretores mexicanos têm obtido no mercado cinematográfico americano, sem dúvida a grande vitrine para qualquer cineasta que aspire algum reconhecimento. Talvez o fato responsável pelo grande número de mexicanos reconhecidos por seus talentos como contadores de histórias seja a proximidade geográfica entre Estados Unidos e México. Muitos podem recorrer ao lugar comum de que vivemos num mundo em que as telecomunicações possibilitam a circulação das informações quase que de forma instantânea, e que as barreiras geográficas e étnicas não importam mais; mas é justamente este o tema em primeiro plano dos filmes de Alejandro González Iñárritu, diretor de Babel (Babel/França, EUA, México/2006); um dos filmes queridinhos da crítica americana no ano passado.
Iñárritu alcançou reconhecimento mundial na ocasião da indicação ao Oscar de Melhor Filme Falado em Língua Estrangeira para Amores Brutos; e assim como neste filme e em seu trabalho anterior, 21 Gramas, há a temática da conexão entre os personagens. Ações de alguns personagens influenciam a vida de estranhos, podendo até criar elos fortes entre pessoas tão distintas; como ocorre com os personagens de Naomi Watts, Sean Penn e Benicio Del Toro em 21 Gramas. Esta é uma marca registrada da parceria antiga entre Iñárritu e seu ótimo roteirista Guillermo Arriaga, porém em Babel a presença do fio que liga os acontecimentos é mais sutil, entretanto continua a existir.
Considero a película a junção de três média-metragens, cujos episódios apresentam uma ligação clara e bem definida, mas que não é importante para a mensagem que Iñárritu e Arriaga pretendem transmitir. Somos apresentados a um casal de turistas americanos no Marrocos (Brad Pitt e Cate Blanchett), que vive um momento difícil no casamento; bem como a uma família de pastores marroquinos. As outras duas histórias transcorrem no Japão e Estados Unidos/México. No Japão, o espectador acompanha o dia de uma garota surda-muda e seus conflitos (Rinko Kikuchi); já na América é tratado tema da imigração América Latina-EUA, personificada por uma babá mexicana (Adriana Barraza) que cuida de um casal de crianças estadunidense, mas precisa ir México para participar do casamento do filho.
Com personagens de etnias tão diversas e pelo título do filme fica fácil compreender a bandeira levantada por diretor e roteirista: o ataque ao preconceito e intolerância. Praticamente todos os problemas no filme decorrem de uma suposta tentativa de assassinato da personagem de Cate Blanchett, e que os Estados Unidos consideram um atentado terrorista. O bom roteiro de Arriaga foca nos dramas pessoais de cada um de seus personagens, que apesar de serem esperados e nada originais não deixam de emocionar e em determinados momentos causar revolta. Os diferentes idiomas falados são um símbolo para a falta de entendimento, as opiniões pré-concebidas e o fosso econômico e social que existe entre nações ricas e pobres. Este aspecto é ainda mais realçado pelo final do filme, quando os cidadãos de países desenvolvidos tomam caminhos diferentes daqueles dos países miseráveis.
Quanto às atuações há bons momentos que devem ser citados. Brad Pitt parece estar se recuperando lentamente do desastre chamado Tróia, e Cate Blanchett simplesmente não faz nada durante todo o filme. Gael García Bernal tem uma participação pequena, mas sólida. Em Babel são os desconhecidos que roubam a cena. Rinko Kikuchi está muito bem como a garota surda-muda cuja mãe se suicidou recentemente, e logo no início consegue a empatia de quem vê o filme. A veterana Adriana Barraza também se sai muito bem como a babá em terras estrangeiras. Dentre os atores que compõem a família de pastores marroquinos se destacam os garotos mais velhos, que conseguem levar com naturalidade os personagens inseridos em condições tão complicadas.
Babel não é o melhor filme de Alejandro González Iñárritu, mas é bem superior à maioria dos dramas e funciona como uma forte crítica à maneira como se dão as relações entre estados ricos e pobres, e ao preconceito, tanto o aberto como o enrustido. Porém, o faz sem ser didático ou panfletário.

18 Janeiro, 2007

CRÍTICA (DVD): Aeon Flux


Se algum dia for contada a história da animação adulta o canal de televisão norte-americano Music Television (MTV) não poderá deixar de ser citado. Muitos animadores perceberam no canal um nicho para o desenvolvimento da animação voltada para os mais velhos, vide as vinhetas nonsense e clássicos como Beavis & Butt-Head.
Aeon Flux (Aeon Flux/EUA/2005) é a adaptação para o cinema do desenho que foi um dos segmentos da Liquid Television da MTV que fez mais sucesso. Os capítulos misturavam ficção científica, abordando temas como manipulação genética, clonagem, vida extreterrestre e biorobótica; com misticismo oriental, sensualidade e algumas boas cenas de ação. Os traços físicos dos personagens rapidamente revelavam que o seriado não tinha crianças como público-alvo, as pessoas tinham feições robustas e disformes, chegando até causar incômodo.
Já a adaptação para a tela grande do desenho criado por Peter Chung (também criador de Alexander Senki) foge um pouco do conceito inicial da série. A ação transcorre no ano de 2415, quatro séculos depois de um vírus ter eliminado quase que totalmente a população humana do planeta. O último reduto humano é a cidade de Bregna, com cinco milhões de habitantes e isolada do mundo exterior, que é governada desde começo da epidemia viral pelo clã dos Goodchild. Misteriosos desaparecimentos de cidadãos e o governo absolutista fazem surgir um grupo reacionário, “Os Monicanos”, que mantém uma legião de assassinos e terroristas dispostos a derrubar o governo do presidente Trevor Goodchild.
É possível imaginar as concessões que os roteiristas tiveram que fazer para levar o filme aos cinemas. Como o objetivo é atingir uma parcela bem maior do público do que quarentões notívagos e solitários, algumas mudanças foram feitas. O desenho tinha forte inspiração nos mangás japoneses, dado o teor das histórias e o visual rebuscado. Entretanto, pouco sobrou dessa influência na versão cinematográfica, como o figurino (muito bom por sinal). Para acolher a platéia adolescente (leia-se diminuir a censura) a lascívia que permeava muitas das ações de Aeon, através das vestimentas e da relação com Trevor, foi praticamente abolida. È também interessante notar como a relação de ódio e amor entre Aeon e Trevor foi alterada, passando rapidamente do amor conflituoso para o amor romântico e meloso; o que ocorre em grande parte devido também a mudanças no caráter de Goodchild, que no desenho apresentava intenções bem mais dúbias e politicamente incorretas que no filme.
As atuações são apenas razoáveis, nem este é um tipo de filme que necessita de arroubos de performance. Charlize Theron tem desempenho burocrático encarnando Aeon e está bonita como na maioria das vezes. O ator neozelandês Marton Csokas faz um Trevor Goodchild apático e sem a imponência do personagem dos desenhos. O enredo por trás da apresentação inicial da trama é bem interessante e criativo, porém o cinéfilo mais rigoroso vai notar alguns furos de grande proporção, cujas descrições caracterizam spoilers, portanto não serão comentados. Há boas seqüências de ação e uma característica que merece ser citada: foi feita a opção por uma concepção visual futurista limpa e insossa, indo na mão contrária do desenho, que representava a metrópole como um ambiente decadente, sujo e violento. É neste momento que a locação original do filme, Brasília, poderia ter sido uma escolha mais acertada que a gélida e desenvolvida Berlin. Aeon Flux é diversão sem expectativas e não deve ser assistido junto de pessoas muito metódicas. Um prato cheio para uma exibição na Sessão da Tarde.

13 Dezembro, 2006

CRÍTICA: Filhos da Esperança

A ficção científica sempre foi considerada um subgênero cinematográfico, ficando relegada nas premiações a quase sempre se sobressair nas categorias técnicas. No entanto, grandes catarses observadas no mundo do cinema podem ser creditadas a filmes de ficção científica; como Guerra nas Estrelas (1977), de George Lucas; e E.T. – O Extraterrestre (1982); de Steven Spielberg. Viagens no tempo, exploração espacial e vida extraterrestre, manipulação genética, robótica e futuro catastrófico são alguns dos temas que já foram espezinhados à exaustão, e a impressão que se tem é que tudo o que já podia ser tratado em termos de futurismo já o foi.
Então, é com entusiasmo que ficções cientificas inteligentes, como Filhos da Esperança (Children of Men, Reino Unido/EUA, 2006), são recebidas. Os fãs do gênero, que normalmente são um público carente de bons e criativos filmes como Blade Runner (1982), ou mais recentemente Matrix (1999); têm a oportunidade de conhecer o trabalho de Alfonso Cuarón, diretor advindo da boa safra de cineastas mexicanos recente, que também tem como expoentes Guillermo Del Toro e Alejandro González Iñárritu. É interessante notar a característica que une esses três diretores, particularmente Cuarón e Del Toro, que é o arrojo visual de seus filmes. Del Toro, que também dirigiu o divertido Hellboy (2004), obteve sucesso de crítica com o ótimo O Labirinto do Fauno, sem dúvida um dos melhores filmes do ano. Mas é Alfonso Cuarón que parece manter uma trajetória mais segura e mais diversificada.
Cuarón talvez seja mais conhecido do público brasileiro por filmes como o infantil A Princesinha (1995) e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004), filme este considerado o melhor das adaptações da série de livros sobre o bruxo-aprendiz. Assim, fica clara a importância que Cuarón dá à imagem. E algumas da melhores seqüências de 2006 podem ser vistas em Filhos da Esperança. O filme é uma adaptação do livro homônimo de P. D. James e transcorre na Inglaterra do ano 2027, quando a humanidade atravessa um período com total ausência de natalidade; não há crianças e as pessoas mais novas tem 18 anos, nascidas no final da década de 2000. A possibilidade da extinção da vida humana instaurou caos ao redor do mundo; o Reino Unido encontra-se muito próximo de uma Guerra Civil, com imigrantes sendo tratados como animais e atentados terroristas cometidos por grupos guerrilheiros. Eis que neste ambiente confuso Theodore Faron, interpretado por Clive Owen, um inglês com passado ativista, é encarregado pelas circunstâncias a ajudar uma garota (Claire-Hope Ashitey) que milagrosamente conseguiu engravidar.
O filme é conduzido com maestria, com momentos de tensão intensa e humor sutil bem distribuído durante o filme. É também um bom drama, apesar de em determinadas situações os roteiristas Alfonso Cuarón e Timothy Sexton não terem conseguido fugir dos lugares comuns do gênero. Quanto ao elenco principal Clive Owen está bem como sempre, não canso de repetir que ele é um dos grandes atores, se não o maior intérprete, de sua geração. Michael Cane, apesar do personagem óbvio e caricato, também apresenta desempenho consistente. A maior decepção é Julianne Moore, que desde Longe do Paraíso (2002) não tem um papel à sua altura.
Filhos da Esperança não é um filme perfeito, mas é uma ficção científica muitas vezes acima da média, um ótimo filme. Reflexo dum momento histórico em que não se sabe ao certo que caminhos o ser humano tomará, Cuarón apresenta um futuro desordenado, contudo de forma não usual. Uma película inteligente, emocionante e de certa forma original. Todavia, a pérola do filme é uma curta, porém belíssima seqüência de batalha que deixaria o diretor de fotografia de O Resgate do Soldado Ryan, Janusz Kaminski, boquiaberto. Genial.

19 Novembro, 2006

CRÍTICA: O Grande Truque


A partir de Amnésia (2000) cinéfilos de todo o mundo começaram a prestar atenção no diretor inglês Christopher Nolan. Depois veio o ótimo Batman Begins. Agora, com O Grande Truque (The Prestige, EUA/Reino Unido, 2006), Nolan confirma que é um dos melhores diretores em atuação.
A história se passa na Londres do final do século XIX; onde dois ilusionistas rivais alimentam o desejo de superar o oponente custe o que custar, revelando o caráter obsessivo que ambos empregam para atingir seus objetivos. Nolan repete a parceria de sucesso de Batman Begins: um dos mágicos, Alfred Borden, é interpretado por Christian Bale. Seu oponente, Robert Angier, fica a cargo de Hugh Jackman.Também fazem parte do elenco o veterano Michael Cane, Andy Serkis, Scarlett Johansson e o cantor David Bowie, numa curiosa aparição como o excêntrico físico croata Nikola Tesla, figura conhecida por qualquer um que tenha um mínimo de interesse pelas ciências ditas exatas.
Nolan revela-se um cineasta completo. Ele sabe filmar, trabalha com bons diretores de fotografia e editores, e conhece bem como não se perder numa narrativa que avança e retrocede no tempo constantemente, como é o caso de O Grande Truque. Aliás, este fato é um dos pontos fortes do filme, Nolan passeia por passado e futuro sem nenhum pudor, e a platéia não sente dificuldade em se situar em que ponto da história encontra-se. Um bom filme no estilo quebra-cabeças foi montado, e Christopher consegue resolve-lo para o espectador de forma inteligente e elegante. Uma pequena citação aos filmes de ficção científica B é feita de maneira criativa (Tesla!), o que me agradou muito, no entanto, como fã do gênero, sou um pouco suspeito.
Bale e Jackman estão muito bem em seus papéis. Depois de um período de esquecimento após O Império do Sol, Bale vem se firmando como um ator competente, e impõe a Borden a dissimulação e cretinice necessárias ao personagem. Já o australiano Jackman consegue transmitir a angústia que Angier vive devido à obsessão em submeter Borden, consumindo-o dia trás dia. Decepcionante, porém, é a participação de Scarlett Johansson. Depois de muitos filmes de êxito, ela ainda não disse a que veio, deixando a impressão que o fato dela tornar-se uma celebridade se deve apenaa à sua beleza ou uma poderosa estratégia de marketing hollywoodiana. Muito sem sal sua atuação em O Grande Truque.
O grande número de bons filmes no cinema nos últimos 15 dias ofuscou um pouco O Grande Truque; é duro ter que concorrer com Almodóvar e Scorsese. Mas não deixe de ver este ótimo filme de um forte candidato a se tornar um dos grandes diretores de nossa era.

Por Fábio Nazaré.

Mais Informações: http://www.imdb.com/title/tt0482571/

01 Novembro, 2006

CRÍTICA: Fica Comigo Esta Noite


Dois cineastas pernambucanos são conhecidos por comédias de sucesso recente: Guel Arraes e João Falcão. Enquanto Arraes opta pelo tom escrachado e exagerado, que apesar de emular fórmulas televisivas (nicho natal do diretor) consegue levar multidões às salas de cinema e tem muitos méritos, Falcão segue por caminhos um pouco mais difíceis.
Esqueça o fenômeno da Internet “O Destino de Miguel”. Fica Comigo Esta Noite (Brasil, 2006) é semelhante ao filme anterior de João, A Máquina. O humor é apenas sutil, o sorriso aberto é uma constante durante quase todo o filme, porém gargalhadas são bem raras. Também está presente uma temática recorrente na obra de Falcão: o fantástico.
Edu (Vladimir Brichta) é um escritor de gibis amador e cantor de uma banda recém apresentada ao sucesso. Uma das brincadeiras sem graça de Edu é se fingir de morto; inclusive como uma maneira de fugir dos momentos mais sérios, uma forma de escape. Acontece que durante um desentendimento com a esposa Laura (Alinne Moraes) por causa das constantes viagens a trabalho (a vida de um rockstar...), Edu acaba realmente morrendo. No outro plano, conhece um fantasma que habita sua casa e tenta encontrar uma forma de se comunicar com esposa que se quedou no mundo dos encarnados.
A grande sacada do roteiro de Adriana Falcão, João Falcão e Tatiana Maciel é a forma despojada com que um tema já socado, pisado e amassado como a experiência pós-morte é tratado. Os clichês do gênero, como o fantasma tentando aprender a se comunicar com os vivos ou o desencarnado que fica preso a fatos terrenos, marcam presença. Porém, o fato não é percebido pela platéia, que consegue atravessar esses problemas sem maiores acidentes.
As situações de crise vividas pelo casal protagonista também servem para criar uma relação de companheirismo com o público, que se sente representado na película. Uma das brigas de Edu e Laura pode trazer à mente muitas lembranças. Contribui para que o filme funcione o bom desempenho de quase todo o elenco; com exceção de Alinne Moraes, bonita mas fraca como sempre. Vladimir Brichta e o cantor Zéu Brito já batem ponto nos filmes de Falcão, mas o melhor ator do filme é Gustavo Falcão, que interpreta o Fantasma do Coração de Pedra (antes de rir da alcunha, o fantasma foi batizado por Edu quando criança e utilizado no seu gibi principal), cujo personagem como bem observou meu colega Daniel Valença tem clara inspiração no Capitão Jack de Johnny Depp, na trilogia Piratas do Caribe. Outro ponto forte do filme é a boa trilha sonora de Robertinho do Recife, repetindo a dose de A Máquina.
Fica Comigo Esta Noite é um bom passatempo nos moldes de uma Sessão da Tarde. Filme despretensioso e engraçado sem forçar demais, cheio de referencias ao mundo cult/pop, e que agradará boa parte do público que procura algo mais além e diverso das simples piadas manjadas ou de cunho puramente escatológico.